top of page

Leia online no clandestino o livro "José 'Pepe' Mujica"

Foto do escritor: ClandestinoClandestino


 

Todos os arquivos da Editora Clandestino possuem uma versão gratuita, pois acreditamos que a informação deve ser amplamente acessível. No entanto, ao adquirir um de nossos arquivos disponibilizados, você contribui para a expansão de nosso trabalho e nos ajuda a alcançar um público ainda maior.


Para adquirir este livro acesse:


 

   



Não sou pobre,

sou sóbrio,

leve de bagagem,

viver com o necessário

para que as coisas

não me roubem a liberdade.

 José "Pepe" Mujica.


 

GOVERNAR COM AUTENTICIDADE: UMA FORMA DE REINVENTAR A POLÍTICA

 

Vários são os princípios que dinamizam a cultura e se articulam à economia solidária que promove, entre eles, um que literariamente poderíamos nomear como "olhar para o Sul", na busca por referências para a construção de horizontes políticos e concreções atuais de práticas democráticas. Esses princípios dão substância a termos como governo, participação, identidade, autonomia, autoridade, que circulam entre os associados que participam, e nutrem o pensamento e a ação que nos animam na construção de um bem viver. Além disso, possibilitar o diálogo de saberes e a conversa entre diversas gerações são considerados meios propícios para a criação de novos pontos de vista que sustentem nosso fazer e, assim, ganhem sensibilidade frente ao que nos acontece no dia a dia.

No dia 1º de março, José Mujica, ou Pepe Mujica, como carinhosamente é chamado, terminou seu período presidencial na República Oriental do Uruguai. Deixou o governo convertido em um referencial da realidade e da luta políticas, com um acumulado construído ao longo de sua vida em diversas instâncias de poder, desde as quais se sonharam ou se concretizaram transformações dirigidas a reduzir a lacuna nas condições materiais entre as classes sociais e ampliar espaços para o desenvolvimento e a expressão da diversidade humana. Consciente dos efeitos de uma economia, uma política e uma cultura que se pretendem globalizadas e que impõem restrições aos governos e governantes — restrições que não foram obstáculos em suas interlocuções com Estados ou organismos de caráter mundial —, sua palavra se tornou um raciocínio sensato que não hesitou em desmascarar as obviedades de uma realidade comum dos governos, articulada pelo alto grau de instrumentalização na administração pública, o enfraquecimento da disciplina de partidos em uma sociedade de massas e o papel dos meios de comunicação na construção de identificações, identidades e representações, que no plano cultural determinam uma eleição presidencial.

Seu governo se caracterizou pela promulgação de leis que avançaram na promoção e defesa dos direitos individuais, com o objetivo de fortalecer um estado social que promove a igualdade e o investimento, e que busca resolver problemas básicos da população, como educação, habitação e saúde.

Como figura pública e no cargo mais alto do governo uruguaio, a escolha consciente de não mudar de estilo de vida — no que diz respeito aos seus trajes, sua maneira de falar, sua vida comunitária e seus relacionamentos — e governar com autenticidade foi uma forma de promover o bem viver baseado no consumo responsável, na produção sustentável, no diálogo de saberes e na afirmação de uma vida que valoriza a solidariedade e o respeito pelo próximo.

Com este caderno, afirmamos o valor da política e a convicção na necessidade de continuar participando com autenticidade, acreditando no que somos e no que podemos ser, buscando sempre uma vida mais justa e digna para todos.

 Fundación CONFIAR


 


GOVERNO E MEIOS DE COMUNICAÇÃO


Faz pouco mais de uma década que podemos ouvir, entre as pessoas do sul, uma ideia bela e sintética, que é cooperativa e solidária, para que ecoe nos ouvidos de crianças, jovens e adultos uma sonoridade cujo significado poderia ser ampliado da seguinte maneira: confiamos na busca por referências e essas não estão necessariamente no norte; confiamos nas bússolas que têm em suas agulhas metálicas uma marca apontando para o sul, porque nos permitem ampliar as formas de observar. Assim se nutre a cultura e comunica suas descobertas, que nesta oportunidade crescem no fértil campo do fazer público e da experiência em participação política de um homem escolhido como presidente, em um país situado no extremo sul do continente americano.

José Mujica Cordano disse, em várias ocasiões durante seu período presidencial, diante dos meios de comunicação e em transmissões que ressoaram por todo o planeta, que as variadas experiências de participação política que teve ao longo de sua vida, as carregam em uma mochila, tal como se carrega o necessário para continuar caminhando e participando. A esse comentário sobre uma realidade e realizações pessoais seria justo acrescentar que também foi possível devido ao apoio da sociedade uruguaia e ao seu trânsito pelos caminhos traçados pelos acordos de paz e pelas ferramentas democráticas e jurídicas que foram criadas para alcançá-los.

Falar sobre o fazer público — um termo que provavelmente desajusta a maioria das categorias de pensamento e conhecimento que foram criadas sobre a política — tem como intenção, nesta apresentação de ressaltar a presença de uma realidade emergente nos governos que, em termos de Mujica, "não tem parangão".[1]

Os governantes eleitos por votação, em todas as instâncias que configuram a organização de um Estado, devem se perguntar qual medida adotarão durante seus mandatos diante dos meios de comunicação. E tal posição, que se constrói da mesma forma que se constroem os acordos, as diretrizes e os programas dentro de um partido ou de uma ampla frente de agrupamentos ou alianças cidadãs, convive com a pesquisa diária que os jornalistas realizam por uma notícia, e com a presença, preparada ou inesperada, diante dos diversos meios e instrumentos de comunicação dos quais hoje dispomos.

Como regular a palavra de um governante ou o que se publica sobre ele? Uma pergunta que esperamos seja sugestiva para refletir sobre o que mencionamos acima como realidade emergente, e que também pode ser caracterizada contando com a possibilidade que o presidente uruguaio concretizou ao elaborar ele mesmo seus discursos: valer-se de sua experiência política e de fazer público para se dirigir a governantes e autoridades internacionais.

Não é a primeira vez que o discurso de um presidente se torna notícia pela pompa do que diz, pela forma como fala quando está diante das câmeras e microfones ou pela contundência das decisões que comunica. O excepcional das falas de Pepe Mujica encontra-se na consideração de seus interlocutores como iguais, ao menos no debate e na deliberação, e em sua franqueza para apresentar os desafios que no presente um governante assume ao tomar ou adotar decisões.

"Quem governa hoje?". Esta é uma das perguntas que o agora ex-presidente uruguaio dirigiu aos mandatários de centenas de países, convocados em instâncias internacionais garantidoras de direitos e criadas para a construção e assinatura de acordos no nível dos Estados. Uma pergunta que vale a pena fazer, considerando as particularidades de cada governo e dos países onde estes se exercem.

Para as pessoas, é um convite a recuperar os discursos de um político que se transformaram em mensagens que, como ele gosta de dizer e refletir, foram dirigidas à humanidade, à de cada um e à imaginária que eticamente todos formamos.




 

BIOGRAFIA DE JOSÉ MUJICA

 

José Mujica nasceu no dia 20 de maio de 1935, no bairro Paso de la Arena, no departamento de Montevideo, filho de Demetrio Mujica Terra e Lucy Cordano. Nas terras de seu avô paterno, soldados eram preparados para resistir aos levantes contra o caudilho Aparicio Saravia[2]. Seu avô materno também era seguidor do Partido Nacional.

Sua mãe nasceu em Carmelo e seu pai era um pequeno estancieiro que entrou em falência pouco antes de morrer, em 1940, quando Mujica tinha apenas seis anos. Ele cursou os estudos primários e secundários na escola e no liceu público do bairro onde nasceu. Concluído o ciclo básico, ingressou no preparatório de Direito no Instituto Alfredo Vásquez Acevedo, ciclo que não chegou a finalizar. Aos 13 anos, e até os 17, começou a praticar ciclismo, competindo por vários clubes e em todas as categorias.

Seu tio materno, Ángel Cordano de Carmelo, era nacionalista e peronista, tendo influência na formação política de Mujica. Em 1956, conheceu o então deputado nacionalista Enrique Erro[3] através de sua mãe, militante do setor de Erro. A partir daí, começou a militar no Partido Nacional, onde chegou a ser secretário-geral da Juventude do partido. Nas eleições de 1958, o Herrerismo venceu pela primeira vez e Erro foi nomeado ministro do Trabalho, com Mujica acompanhando-o, embora sem ser funcionário do Ministério.

Em 1962, Erro e Mujica abandonaram o Partido Nacional para fundar a União Popular, junto ao Partido Socialista do Uruguai e a um pequeno grupo denominado "Novas Bases". José Mujica, nos anos 60, integrou o Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros. Como membro da organização, Mujica participou de ações guerrilheiras, ao mesmo tempo em que trabalhava em sua chácara, até que, pressionado pela polícia, se refugiou na clandestinidade. Durante o governo de Jorge Pacheco Areco, a violência aumentou. O Poder Executivo utilizou repetidamente o instituto constitucional das medidas prontas de segurança para enfrentar a guerra de guerrilhas, assim como a crescente oposição de sindicatos e grêmios às suas políticas econômicas.

Em confrontos armados, Mujica foi ferido por seis balas. Foi preso quatro vezes e, em duas ocasiões, fugiu da prisão de Punta Carretas. No total, Mujica passou quase 15 anos de sua vida na prisão. Seu último período de detenção durou treze anos, entre 1972 e 1985, sendo particularmente difícil.

Após alguns anos de abertura democrática, criou, junto a outros líderes do MLN e de outros partidos de esquerda, o Movimento de Participação Popular (MPP), dentro do ‘Frente Amplio’. Nas eleições de 1994, foi eleito deputado por Montevideo. Declarou sentir-se "como um vaso de flores"[4] ao iniciar sua atividade parlamentar. Contudo, sua presença na arena política começou a chamar a atenção da população, pois Mujica soube capitalizar o descontentamento popular.

Nas eleições de 1999, foi eleito senador. Simultaneamente, seu setor político visava uma estratégia de acumulação. Nesse ano, foi publicado o livro Mujica, de Miguel Ángel Campodónico, que reúne a vida e o pensamento do guerrilheiro transformado em político.

Nas eleições de 2004, seu movimento obteve mais de 300.000 votos (a maior votação do país), representando um importante percentual dentro do Frente Amplio, consolidando-se como a principal força do partido governista. No dia 1º de março de 2005, o presidente da República, Tabaré Vázquez, o nomeou ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. Foi acompanhado na subsecretaria por Ernesto Agazzi, engenheiro agrônomo. Nas palavras de Mujica, "o verdadeiro ministro seria Agazzi". Na prática, a atuação de Mujica no governo foi mais associada à presença de um operador político e gerador de opinião com uma nova capacidade de diálogo com a sociedade. Destacou-se particularmente por suas expressões curiosas, seus comentários surpreendentes e suas "saídas de tom". Isso agradou a muitos setores da população, pela franqueza de suas propostas, embora também tenha havido críticas à sua suposta falta de profissionalismo.

Deixou o cargo no dia 3 de março de 2008, passando o posto para seu então vice-ministro Ernesto Agazzi. A partir daí, retornou ao Senado, e todos os meios, tanto políticos quanto de imprensa, mencionaram sua eventual candidatura à presidência, apesar da preferência do presidente Vázquez por Danilo Astori.

Logo, Mujica começou a gerar ações políticas que deixavam claro seu desejo de se candidatar à presidência, como a visita aos Kirchners na Argentina. Essa visita foi muito comentada, pois naquele momento, Uruguai e Argentina viviam uma situação diplomática tensa, com trocas incessantes de agressões entre os governos de ambos os países. Mujica defendeu uma postura de aproximação entre os povos irmãos.

O Congresso Extraordinário "Zelmar Michelini" do Frente Amplio, realizado nos dias 13 e 14 de dezembro de 2008, além de resolver o programa de governo para um novo período, o proclamou como candidato oficial do Frente Amplio para as eleições internas de 2009, embora tenha habilitado outros quatro candidatos (Danilo Astori, Daniel Martínez, Marcos Carámbula e Enrique Rubio) a participarem dessa mesma instância em igualdade de condições. Posteriormente, tanto Martínez quanto Rubio desistiram de suas candidaturas, ficando a disputa nas internas entre Mujica, Astori e Carámbula.

Antes das eleições, Mujica recebeu o apoio do kirchnerismo; inclusive tinha um comício agendado em Mar del Plata, que teve que ser cancelado após forte crítica de seu partido. No dia 24 de maio de 2009, apresentou sua renúncia ao seu setor político, o MPP, por meio de uma carta onde afirmava que, a partir daquele momento, "deixava de estar obrigado à disciplina do grupo e aos seus órgãos de direção". A direção do MPP aceitou a renúncia, considerando que Mujica deveria "assumir sua responsabilidade como candidato de todos os frenteamplistas".

Em 28 de junho do mesmo ano, após as eleições internas, foi eleito candidato único à presidência pelo Frente Amplio, após vencer seus concorrentes com 52% dos votos totais. Em setembro de 2009, foi publicado o livro Pepe Coloquios, do jornalista Alfredo García, que reúne várias entrevistas gravadas com Mujica, com suas ideias, pensamentos e frases. Esse livro gerou polêmica. A esse respeito, Mujica declarou: "Eu erro como qualquer filho de vizinho".

No dia 25 de outubro de 2009, Mujica obteve uma votação próxima à metade do total de votos válidos, o que lhe garantiu disputar o segundo turno contra Luis Alberto Lacalle no dia 29 de novembro. Nesse dia, foi eleito presidente do Uruguai com mais de 52% dos votos emitidos. Em meio a uma multidão molhada pela chuva, Mujica dirigiu uma mensagem a todos os uruguaios, incluindo os líderes da oposição, especialmente para vencer muitos preconceitos.

"Sabe de uma coisa, povo? O mundo está de pernas para o ar. Vocês deveriam estar aqui (no palanque), e nós aí embaixo, aplaudindo. Elegemos um governo que não é dono da verdade e precisa de todos. Custou-me uma vida entender que o poder está nas massas..." [5]

José Mujica prestou juramento no dia 1º de março de 2010 no Palácio Legislativo, para assumir o cargo de presidente da República Oriental do Uruguai. Esta promessa foi feita por sua própria esposa, Lucía Topolansky, por ser a primeira senadora da Nação. A cerimônia contou com a presença de autoridades de diferentes partidos políticos uruguaios e representantes de vários países, como Hillary Clinton, Cristina Fernández, Néstor Kirchner, Rafael Correa, Hugo Chávez, entre outros. Mujica pronunciou um discurso amplamente elogiado e comentado, no qual seu passado guerrilheiro, suas ideias e o longo caminho até a presidência foram abordados.

Ao concluir a cerimônia e o discurso de Mujica, ele e o vice-presidente recém-eleito, Danilo Astori, seguiram em direção a uma caravana que os levaria até o local da posse oficial. Pepe Mujica assumiu formalmente o cargo de presidente do Uruguai cerca de duas horas e meia depois do juramento, em uma cerimônia realizada ao ar livre, a pedido expresso de Mujica, na Praça Independência (a mais importante do país), diante de um grande público e autoridades presentes, quando o presidente Tabaré Vázquez lhe colocou a faixa presidencial.

Mujica e sua esposa vivem com grande austeridade, há décadas, em uma chacra na região de Rincón del Cerro, onde se dedicam ao cultivo de flores como atividade econômica. Ao assumir a presidência, em vez de se mudar para a residência presidencial de Suárez e Reyes, o casal decidiu permanecer em sua residência[6], o que implicou em melhorias em questões de segurança e comunicação.

Antes da posse, começaram a ser conhecidas as diferentes linhas programáticas que seriam implementadas no novo governo, que tomaria posse em 1º de março de 2010. Nesse contexto, o governo eleito definiu quatro eixos de trabalho para a formulação de políticas de Estado, ou seja, que ultrapassassem um período de governo e fossem relativamente independentes do partido político no poder. Os eixos definidos foram: Educação, Segurança, Meio Ambiente e Energia, e foram convocados partidos políticos da oposição com representação parlamentar para integrar comissões de trabalho para elaboração das políticas. Também foi proposto que o governo eleito pretendia realizar uma reforma ambiciosa da administração pública, inspirada no modelo neozelandês.

Em seu discurso de posse, realizado em 1º de março de 2010, Mujica reafirmou a necessidade de que o país tivesse políticas de Estado. Também colocou como objetivo principal de sua administração a eliminação da indigência e a redução da pobreza em 50%.[7]

A existência de discrepâncias entre duas aparentes “correntes” econômicas tornou-se evidente em 2011 no tratamento de vários projetos, como o Imposto sobre a Concentração de Imóveis Rurais (ICIR) ou a lei que implementava várias reduções diferenciadas no IVA. No entanto, o governo afirmou reiteradamente que a política econômica do governo é única e que "não há nenhuma equipe econômica trabalhando nas sombras".

Esse plano é considerado como o carro-chefe do governo de Mujica. Foi lançado pelo governo em 15 de junho de 2010, como uma continuidade do Plano de Emergência de seu antecessor, Tabaré Vázquez. O plano é sustentado por colaborações solidárias de empresas privadas, com 87% do salário mensal de Mujica e com a venda de algumas propriedades do Estado que caíram em desuso. O objetivo do plano é oferecer casas para famílias carentes. Foi definido pelo próprio presidente, não como um plano de habitação, mas como um plano ético e uma visão para o futuro. O plano começou a ser implementado em meados de 2010, e a primeira casa foi construída no assentamento informal Primeiro de Maio. As moradias são construídas com especialistas, mas também com os próprios interessados, seus vizinhos e voluntários.

Em uma iniciativa sem precedentes, em junho de 2012, o governo de Mujica propôs legalizar e regulamentar a venda de maconha. O tema gerou ampla discussão e foi extremamente complexo. No entanto, em meio aos comentários e críticas que isso gerou mundialmente, a proposta recebeu elogios da revista britânica Monocle, e a revista americana Time destacou o fato, questionando se os líderes mundiais não deveriam seguir o mesmo caminho.



 

A FELICIDADE HUMANA

Discurso elaborado por José Mujica para a cúpula Rio + 20.

Brasil, Rio de Janeiro, 20 de junho de 2012

 

Autoridades presentes de todas as latitudes e organismos, muito obrigado. E muito obrigado e nosso agradecimento ao povo do Brasil e à sua senhora Presidente. E muito obrigado à boa fé que certamente manifestaram todos os oradores que me precederam.

Expressamos a íntima vontade, como governantes, de acompanhar todos os acordos que esta, nossa pobre humanidade, possa subscrever. No entanto, permitam-nos fazer algumas perguntas em voz alta. Toda a tarde tem-se falado sobre o desenvolvimento sustentável. De tirar imensas massas da pobreza. O que é que está martelando em nossas cabeças? O modelo de desenvolvimento e de consumo, é o atual das sociedades ricas?

Faço essa pergunta: o que aconteceria a este planeta se os hindus (sic) tivessem a mesma proporção de carros por família que os alemães? Quanto oxigênio nos restaria para poder respirar?

Mais claro! O mundo tem os elementos, hoje, materiais, como para fazer possível que sete mil, ou oito mil milhões de pessoas possam ter o mesmo grau de consumo e de desperdício que têm as mais opulentas sociedades ocidentais? Será possível? Ou teremos que nos dar algum dia outro tipo de discussão?

Porque criamos uma civilização — na qual estamos — filha do mercado, filha da competição e que gerou um progresso material portentoso e explosivo!

Mas o que foi economia de mercado, criou sociedades de mercado. E nos trouxe essa globalização que significa olhar por todo o planeta. Estamos governando a globalização ou a globalização nos governa? É possível falar de solidariedade e de que "estamos todos juntos" em uma economia que se baseia na competição impiedosa? Até onde chega nossa fraternidade?

Nada disso digo para negar a importância deste evento. Não, pelo contrário. O desafio que temos pela frente é de uma magnitude colossal. E a grande crise não é ecológica, é política!

O homem não governa hoje as forças que desencadeou, mas sim as forças que ele desencadeou o governam, a ele e à vida. Porque não viemos ao planeta para nos desenvolvermos em termos gerais, viemos à vida tentando ser felizes. Porque a vida é curta e nos escapa. E nenhum bem vale mais do que a vida. E isso é elementar.

Mas, se a vida vai me escapar, trabalhando e trabalhando para consumir um "plus", e a sociedade do consumo é o motor, porque, no final das contas, se o consumo parar ou se detiver, a economia para, e se a economia para, o fantasma do estancamento nos acomete. Mas esse hiperconsumo, por sua vez, é o que está agredindo o planeta. E é necessário gerar esse hiperconsumo com coisas que duram pouco, porque é preciso vender muito. E uma lâmpada elétrica não pode durar mais de mil horas acesa, mas existem lâmpadas elétricas que poderiam durar cem mil, duzentas mil horas. Mas essas não podem ser feitas! Porque o problema é o mercado, porque temos que trabalhar e ter uma civilização de uso e descarte, e estamos em um círculo vicioso.

Esses são problemas de caráter político que nos dizem da necessidade de começarmos a lutar por outra cultura. Não se trata de pensarmos em voltar ao homem das cavernas, nem de ter um monumento ao atraso, mas não podemos continuar indefinidamente governados pelo mercado, temos que governar o mercado. Por isso digo que o problema é de caráter político, na minha humilde forma de pensar.

Porque os antigos pensadores definiram — Epicuro, Sêneca, os aimarás[8] —: pobre não é quem tem pouco, mas realmente pobre é quem precisa infinitamente de muito, e deseja e deseja e deseja mais e mais. Esta é uma chave de caráter cultural!

Então, vou saudar o esforço e os acordos feitos. E os acompanharei como governante. Porque sei que algumas coisas do que estou dizendo “rendem” um pouco, mas devemos perceber que a crise da água, que a crise da agressão ao meio ambiente não é uma causa. A causa é o modelo de civilização que montamos, e o que temos que revisar é nossa forma de viver. Por quê?

Eu pertenço a um pequeno país muito bem dotado de recursos naturais para viver. No meu país há três milhões de habitantes, um pouco mais, três milhões e duzentos. Mas há cerca de treze milhões de vacas, das melhores do mundo. E uns oito ou dez milhões de ovelhas maravilhosas. Meu país é exportador de comida, de laticínios, de carne. É uma penillanura,[9] quase 90% do seu território é aproveitável. Meus companheiros trabalhadores lutaram muito pelas oito horas de trabalho. Agora estão conseguindo seis horas. Mas quem consegue seis horas, consegue dois empregos, portanto, trabalha mais do que antes. Por quê? Porque tem que pagar uma série de prestações: a moto que comprou, o carro que comprou. E paga prestações e paga prestações, e quando percebe, é um velho reumático como eu e a vida se foi. E a gente se faz essa pergunta: é esse o destino da vida humana?

Essas coisas são muito elementares: o desenvolvimento não pode ser contra a felicidade. Tem que ser a favor da felicidade humana, do amor, da convivência sobre a terra! Das relações humanas! Cuidar dos filhos! Ter amigos! Ter o essencial! Justamente porque isso é o tesouro mais importante que temos. Quando lutamos pelo meio ambiente, o primeiro elemento do meio ambiente chama-se: a felicidade humana.

Obrigado.





 

JOSÉ MUJICA NA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU

discurso pronunciado em 24 de setembro de 2013

 

Amigos todos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma penillanura suave, temperada, pecuária, sua história de portos, couros, carne-seca, lã e carne teve décadas roxas de lanças e cavalos, até que finalmente, ao começar o século XX, passou a ser vanguarda no social, no Estado, na educação. Eu diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, economicamente fomos filhos bastardos do império britânico, e quando este sucumbiu, vivemos as amargas mieles de termos de intercâmbio nefastos, e ficamos estagnados, lamentando o passado, quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos neste mundo globalizado, talvez aprendendo com nossa dor.

Minha história pessoal, a de um rapaz — porque já fui jovem — que, como outros, quis mudar sua época e seu mundo, por meio de um sonho: o de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros, em parte, são filhos do meu tempo, obviamente os assumo, mas há momentos em que me grito com nostalgia: Quem dera tivesse a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia!

No entanto, não olho para trás porque o hoje real nasceu nas cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou reviver lembranças. Me angustia, e de que forma, o porvir que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez hoje a primeira tarefa seja salvar a vida.

Mas sou do sul e venho do sul, para esta Assembleia. Carrego inequivocamente com os milhões de compatriotas pobres nas cidades, nos campos, nas selvas, nas pampas, nas favelas da América Latina, pátria comum que está sendo construída; carrego com as culturas originárias esmagadas, com os restos do colonialismo nas Malvinas, com os bloqueios inúteis contra esse crocodilo sob o sol do Caribe chamado Cuba; carrego com as consequências da vigilância eletrônica que não faz outra coisa a não ser semear desconfiança, desconfiança que nos envenena inutilmente; carrego com uma gigantesca dívida social, e com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios da América; carrego com o dever de lutar por uma pátria para todos, e para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego com o dever de lutar pela tolerância. A tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes e com os que temos diferenças e discordamos, não se precisa de tolerância para os que estamos de acordo. A tolerância é o fundamento de poder viver em paz, entendendo que no mundo somos diferentes.

A luta contra a economia suja, o narcotráfico, a fraude e a corrupção, pragas contemporâneas geradas por esse ‘antivalor’, que sustenta que somos mais felizes se nos enriquecemos a qualquer custo. Sacrificamos os antigos deuses imateriais e ocupamos o templo com o deus mercado, ele organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade. Parece que nascemos apenas para consumir e consumir, e quando não conseguimos, carregamos a frustração, a pobreza e até a autoexclusão.

O certo, o certo hoje é que para gastar e enterrar os detritos naquilo que se chama pegada de carbono pela ciência, se aspirássemos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam necessários três planetas para viver. Ou seja, nossa civilização impôs um desafio mentiroso, e assim como estamos não é possível para todos preencher esse sentido de desperdício que foi dado à vida, que na prática está se massificando como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de desperdício e luxo, e no fundo constitui uma contagem regressiva contra a natureza e contra a humanidade como futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais, mas pior: civilização contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver as relações humanas, o único transcendente: amor, amizade, aventura, solidariedade, família. Civilização contra o tempo livre que não paga, que não se compra, e que nos permite contemplar e examinar o cenário da natureza.

Arrasamos as selvas, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com andadores, a insônia com pílulas, a solidão com eletrônicos. Será que somos felizes distantes do entorno humano? Cabe fazer essa pergunta. Atordoados, fugimos de nossa biologia que defende a vida por si mesma, como causa superior, e a substituímos pelo consumismo funcional, funcional à acumulação.

A política, a política... A eterna mãe do acontecimento humano, ficou acorrentada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode fazer outra coisa senão perpetuar-se, e como tal delegou o poder e se entretém, atordoada, lutando pelo governo. Marcha desenfreada da história humana, comprando e vendendo tudo, inovando para poder negociar de algum modo o que é inegociável. Existe marketing para tudo: para cemitérios, serviços funerários, maternidades, marketing para pais, para mães, passando pelas secretárias, carros e férias. Tudo, tudo é negócio. Ainda as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças e sua psicologia para influenciar os adultos e garantir um território no futuro. Sobram provas dessas tecnologias bastante abomináveis que, às vezes, conduzem às frustrações em massa.

O homem médio de nossas grandes cidades vagueia entre as financeiras e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar-condicionado. Sempre sonha com as férias e a liberdade, sempre sonha em quitar as contas, até que um dia o coração para, e adeus. Haverá outro soldado cobrindo as bocas do mercado, assegurando a acumulação.

A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa, nem escapará, do sentimento de nação. Sentimento que quase está incrustado em nosso código genético, de algum lugar somos. Mas hoje, hoje é hora de começar a lutar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem outra condução que o interesse privado, de muito poucos, e cada estado nacional olha sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, na nossa humilde visão, é o todo.

Como se isso fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos, que no fundo são o topo do poder mundial. Mais claro, mais claro: acreditamos que o mundo grita por regras globais que respeitem as conquistas da ciência, que abundam, mas não é a ciência que governa o mundo. São necessárias, por exemplo, uma longa agenda de definições: quantas horas de trabalho em toda a Terra, como convergem as moedas, como financiar a luta global pela água e contra os desertos, como reciclar e pressionar contra o aquecimento global, quais são os limites de cada grande tarefa humana.

Seria imperativo alcançar consensos planetários para desatar solidariedade para os mais oprimidos, penalizar o desperdício e a especulação; mobilizar as grandes economias, não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem frivolidades, para ajudar a levantar os mais pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável do que fazer guerras, é investir em um neokeynesianismo útil de escala planetária para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.

Talvez nosso mundo precise de menos organismos mundiais, aqueles que organizam fóruns e conferências, que são muito úteis para as redes hoteleiras e companhias aéreas, e que no melhor dos casos ninguém recolhe e transforma em decisões...

Precisamos sim mastigar muito do velho e eterno da vida humana junto à ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade, não para se enriquecer; com ela, com os homens de ciência de mãos dadas, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos por todo o mundo. Nem os grandes estados nacionais, nem as transnacionais, muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não busca lucro, mas que olha para o futuro e nos diz coisas que não prestamos atenção. Quantos anos já se passaram desde que nos disseram em Quioto[10] determinadas coisas que não ouvimos? Acredito que precisamos convocar a inteligência para comandar a nave acima da Terra; coisas desse tipo, e outras que não posso desenvolver, nos parecem imprescindíveis, mas exigiriam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

Obviamente, não somos tão ingênuos, essas coisas não acontecerão, nem outras semelhantes. Temos muitos sacrifícios inúteis pela frente, muito remendo de consequências e nada de enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar uma regulamentação planetária para a globalização, e isso é devido ao enfraquecimento da alta política, aquela que cuida de tudo. Por um tempo, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos regionais que vão apresentar um falso livre comércio interno, mas que, no fundo, vão acabar construindo barricadas protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. Por sua vez, vão crescer setores industriais de importância, e serviços, todos dedicados a salvar e melhorar o meio ambiente. Assim, vamos nos consolar por um tempo, vamos estar entretidos e, naturalmente, a acumulação continuará impassível, para deleite do sistema financeiro. As guerras continuarão e, portanto, os fanatismos, até que talvez a natureza nos chame à ordem e torne inviável nossa civilização. Talvez, senhores, talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos o homem como uma criatura única, a única que há na Terra capaz de ir contra sua própria espécie.

Repito: o que alguns chamam de crise ecológica do planeta é consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo, também nossa derrota, porque temos impotência política para nos encaixar em uma nova época, que ajudamos a construir e não percebemos.

Por que digo isso? São apenas dados. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial se duplica. Poderíamos continuar anotando dados que deixam claro o rumo da globalização. O que está nos acontecendo? Entramos rapidamente em outra época, mas com políticos, trajes culturais, partidos e jovens, todos velhos, diante da pavorosa acumulação de mudanças que nem conseguimos registrar. Não conseguimos lidar com a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegando aos limites biológicos.

Nossa época é extraordinariamente revolucionária, como a humanidade nunca conheceu, mas não tem liderança consciente, ou, no mínimo, liderança apenas instintiva. Muito menos ainda uma liderança política organizada, porque nem mesmo tivemos filosofia precursora diante da velocidade das mudanças que se acumularam.

A ganância, tão negativa e tanto motor da história, aquela que empurrou o progresso material, técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um avanço fenomenal em muitos aspectos, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a ganância que nos empurrou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia, nos precipita a um abismo nebuloso, para uma história que não conhecemos, para uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e nos perpetuando e transformando-nos. Porque se há uma característica do ser humano, é que ele é um conquistador antropológico.

Parece que as coisas tomam autonomia e as coisas submetem os homens. De um lado ou de outro, há ativos suficientes para vislumbrar essas coisas e, em todo caso, vislumbrar o rumo. Mas nos é impossível coletivizar decisões globais para esse todo. Mais claro: a ganância individual triunfou amplamente sobre a ganância superior da espécie.

Vamos esclarecer, o que é o todo? Essa palavra que usamos. Para nós, é a vida global do sistema Terra, incluindo a vida humana, com todos os equilíbrios frágeis que possibilitam nossa perpetuação.

Por outro lado, mais simples, menos opinável e mais evidente, em nosso Ocidente particularmente, porque de lá viemos, embora venhamos do Sul, as repúblicas que nasceram para afirmar que os homens são iguais, que ninguém é mais do que ninguém, que seus governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a equidade, muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento das pessoas comuns, aquelas que andam pelas ruas, o povo comum. Não foram as repúblicas criadas para vegetar sobre o rebanho, mas, ao contrário, são um grito na história para serem funcionais à vida dos próprios povos, e por isso, as repúblicas devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.

Por qualquer razão, por reminiscências feudais que estão lá em nossa cultura, por um classismo dominador, talvez pela cultura consumista que nos cerca a todos, as repúblicas, frequentemente em suas direções, adotam um viver diário que exclui, que põe distância com o homem da rua. Na realidade, esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.

O fato é que cultivamos arcaísmos feudais, ‘cortesismos’ consentidos, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, minam o melhor que as repúblicas têm: que ninguém é mais do que ninguém. O jogo desses e outros fatores nos mantém na pré-história, e hoje é impossível renunciar à guerra quando a política falha.

Assim, a economia é estrangulada, recursos são desperdiçados... Ouçam bem, queridos amigos: a cada minuto do mundo, em cada minuto, são gastos dois milhões de dólares em orçamentos militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em orçamentos militares! Em pesquisa médica, sobre todas as doenças, que avançou enormemente e é uma bênção para a promessa de viver alguns anos a mais, essa pesquisa mal cobre a quinta parte da pesquisa militar. Esse processo, do qual não conseguimos sair, é cego, assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras, e também é desperdício de fortunas. Sei que é muito fácil, poeticamente, autocríticas nacionais, e acredito que seria uma ingenuidade neste mundo sugerir que lá existem recursos para economizar e gastá-los em outras coisas úteis. Isso seria possível, de novo, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e nos dessem aos mais fracos as garantias que não temos. Aí haveria enormes recursos para cortar e atender as maiores vergonhas na Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, para onde iríamos sem a existência dessas garantias globais?

Então, cada um faz sua vela de armas de acordo com sua magnitude, e aí estamos, porque não conseguimos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.

As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem manter sua cota de poder. Bloqueiam, na prática, esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas pior ainda, desarraigam-na da democracia, no sentido global, porque não somos iguais. Não podemos ser iguais neste mundo onde existem mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia global ferida e está cortada a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo, e que realmente exista. E então, remendamos doenças onde elas eclodem e se apresentam conforme parece a alguma, ou algumas das grandes potências; os outros olham de longe, não existimos.

Amigos, eu acredito que é muito difícil inventar uma força pior que o nacionalismo chauvinista[11] das grandes potências. A força, a força que é libertadora dos fracos, o nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, transforma-se em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes, e veja que nos últimos 200 anos tivemos exemplos por toda parte.

A ONU, nossa ONU, definha, burocratiza-se por falta de poder e autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia em relação ao mundo mais fraco, que constitui a esmagadora maioria do planeta[12]. Coloco um pequeno exemplo, bem pequenininho. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz dos países da América Latina espalhados pelo mundo. E lá estamos, onde nos pedem para estar. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café.

No fundo do nosso coração existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que, enquanto o homem viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir. Enquanto o homem não sair dessa pré-história e arquivar a guerra como recurso quando a política falha, essa é a longa marcha e o desafio que temos pela frente. E dizemos isso com conhecimento de causa, conhecemos as solidões da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superem, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que supere o individualismo e se empenhe em recriar cabeças políticas que sigam o caminho da ciência, e não apenas os interesses imediatos que nos estão governando e sufocando.

Paralelamente, é preciso entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, são da humanidade inteira, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se no seu desenvolvimento, para que possam viver com dignidade por si mesmos. Os recursos necessários existem, estão nesse depredador desperdício de nossa civilização. Há poucos dias, fizeram lá, na Califórnia, em uma agência de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há 100 anos; 100 anos acesa, amigos! Quantos milhões de dólares nos tiraram do bolso fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem e comprem e comprem e comprem. Mas esta globalização, de olhar por todo o planeta e por toda a vida, significa uma mudança cultural brutal; é o que a história nos exige. Toda a base material mudou e vacilou, e os homens, com nossa cultura, permanecemos como se nada tivesse acontecido, e, em vez de governarmos a globalização, ela nos governa.

Faz mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin[13]. Impossível aplicá-la a nível global. Todos os bancos do poder financeiro se levantam feridos em sua propriedade privada, e o que mais? No entanto — isso é o paradoxal —, no entanto, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem passo a passo é capaz de transformar em verde os desertos. O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam com água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial, é incomensurável.

Lá estão as mais poderosas fontes de energia. O que sabemos sobre a fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la; com ela é possível arrancar pela raiz toda a indigência do planeta, é possível criar estabilidade e será possível para as gerações futuras, se conseguirem começar a raciocinar como espécie e não apenas como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética, os seres humanos. Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos nos governar a nós mesmos ou sucumbiremos, ou sucumbiremos, porque não somos capazes de estar à altura da civilização que, na prática, fomos desenvolvendo.

Esse é o nosso dilema. Não nos entretemos apenas remendando consequências, pensemos nas causas profundas, na civilização do desperdício, na civilização do use e jogue fora, que o que está sendo jogado fora é tempo de vida humana desperdiçado, gastando com questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre! Que estamos vivos por milagre e nada vale mais do que a vida! E que nosso dever biológico é, acima de todas as coisas, respeitar a vida e promovê-la, cuidar dela, procriá-la, e entender que a espécie somos nós.

Obrigado.




 

ADEUS A PEPE MUJICA

José Mujica chega ao final de um mandato que mudou seu país e inspirou o mundo.

Retrato de uma figura que entra para a história.

 

 

Desde o primeiro dia de seu governo, José Mujica marcou a diferença. Sem gravata, um pouco despenteado e mais preocupado com seus óculos para a presbiopia do que com os meios de comunicação, o homem que estava prestes a ocupar o cargo mais importante de seu país parecia mais um tipo qualquer saído da multidão do que um político tradicional. Em seus cinco anos de governo, ele teria várias oportunidades para confirmar essa impressão. Também, para precisar que tipo de "tipo qualquer" ele era.

Por um lado, o Pepe (como prefere ser chamado) inspira uma proximidade incomum em um continente marcado pelo caudilhismo populista. Mas, ao contrário de outros protagonistas recentes da esquerda latino-americana, como Fidel Castro, o falecido Hugo Chávez e até mesmo Lula da Silva, o presidente de saída do Uruguai está nas antípodas do tipo durão e seguro de si. Dentro e fora de seu país, é amplamente apreciado, mas não como o homem das soluções providenciais, e sim por algo muito diferente: durante seus cinco anos de governo, Mujica foi de uma franqueza inédita ao falar de suas incertezas, tristezas e desilusões. Em grande parte, suas fraquezas o precedem.

No entanto, o Pepe também chega ao final de seu mandato convertido em um dos governantes mais respeitados e ouvidos de todo o mundo. E, embora a ausência de líderes competentes nos cinco continentes possa levar à conclusão de que, em terra de cegos, quem tem um olho é rei, o fato é que seus discursos lúcidos e sua forma austera de viver o tornaram uma figura única, cujo legado vai transcender as conjunturas do início do século XXI. Em seus melhores momentos, Mujica parece, de fato, o protagonista de uma antiga lenda oriental, na qual um velho governante muito sábio dá a todos os povos uma grande lição. Mas como conciliar o homem vivido pela vida e o líder brilhante que diagnostica o mal-estar em nossa cultura?

Em grande medida, o impacto das palavras do ex-presidente da República Oriental do Uruguai se deve à coerência entre o que faz e o que diz. Em um planeta onde parece óbvio que os mandatários usem o dinheiro público para construir palácios, pagar viagens em primeira classe e levar uma vida de luxos, o estilo de Mujica não passa despercebido. Começando por sua decisão de receber apenas 10% dos 12.000 dólares que lhe são devidos como salário, pois com esse dinheiro ele se sustenta e "há outros uruguaios que vivem com muito menos". Os 90% restantes — que, em seus cinco anos de governo, somam 550.000 dólares — ele doou para um plano governamental destinado a combater a precariedade em que vivem 15.000 famílias uruguaias.

De fato, o estilo de vida do presidente Mujica é austero, como puderam comprovar as dezenas de jornalistas que visitaram sua modesta propriedade nos arredores de Montevidéu. Ali, o Pepe criou um lugar no mundo onde vive com seus entes queridos: sua esposa — a senadora Lucía Topolansky —, sua cachorrinha Manuela, que perdeu uma pata em uma briga com cães vizinhos, mas também as flores e árvores entre as quais ele passeia em seus momentos livres e a quem costuma falar (“sou um pouco panteísta”, confessa, embora também se declare ateu). Sem esquecer seu já icônico Fusca Volkswagen azul, pelo qual um sheik árabe lhe ofereceu um milhão de dólares, proposta que ele recusou.

Na verdade, Mujica não se sente pobre, mas sim, ao contrário:

“Tenho poucas coisas, é verdade, o mínimo necessário, mas apenas para poder ser rico. Quero ter tempo para dedicar às coisas que me motivam. E se eu tivesse muitas coisas, teria que me preocupar em cuidar delas e não poderia fazer o que realmente gosto”, disse em 2012.

 

Ao mesmo tempo, na dimensão moral de Mujica, foi essencial o profundo simbolismo de sua evolução política. De fato, o homem que hoje transmite uma mensagem humanista de paz e tolerância empunhou, durante sua juventude, as armas para derrubar um governo que considerava ilegítimo e impor sua ideologia de esquerda. No entanto, as coisas não saíram como ele e seus companheiros do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros haviam imaginado. Durante suas atividades como guerrilheiro, o Pepe foi ferido com seis balas em confrontos e foi capturado três vezes. Embora tenha fugido duas vezes, após sua última captura ele passou 13 anos atrás das grades como "refém" da junta militar, o que, em termos claros, significava que, se algum de seus companheiros realizasse outro golpe, ele seria executado. Desses anos, os mais difíceis foram os últimos 11, passados isolado em uma cela minúscula, que mais parecia uma masmorra. Ali, como conta o jornalista Walter Pernas em seu livro Comandante Facundo, esteve várias vezes à beira da loucura, comeu papel higiênico, sabão e até moscas, teve alucinações visuais e auditivas, e sofreu os rigores do inverno e do verão.

Como Edmond Dantès, o protagonista de O Conde de Montecristo, Mujica entrou na prisão como um jovem com olhos de olhar intenso e lá viveu uma experiência que o transformou em um homem maduro, de semblante reflexivo. Mas, ao contrário do fugitivo do castelo de If, as dificuldades do confinamento não preencheram Pepe com desejos obsessivos de vingança. Pelo contrário, ao sair da masmorra, ele saiu com mais vontade de aproveitar a vida do que nunca e, sobretudo, com a profunda convicção de que a única certeza na vida é que não há certezas absolutas. Uma verdadeira revelação para a esquerda tradicional latino-americana, que viveu — e ainda vive — a militância política com o fervor de uma religião.

Nesse sentido, sua passagem pela prisão é fundamental para entender algumas decisões que marcaram sua presidência, como ter recebido no Uruguai 120 refugiados da guerra da Síria e seis ex-presos que passaram mais de uma década no campo de prisioneiros de Guantánamo. Como se recorda, muitos dos detidos naquela prisão controlada pelos Estados Unidos não tiveram um processo legal, foram submetidos a técnicas de tortura para destruir sua vontade e hoje estão esquecidos pelo sistema jurídico estadunidense. Pepe, que durante seus anos de prisão não pôde andar ereto devido às dificuldades vividas na prisão, pode entender o que eles passaram.

 

"Eles os pegaram numa fase jovem da vida e os mataram mantidos isolados", disse em entrevista.

 

Tudo o que foi dito acima seria apenas uma anedota se, nos seus cinco anos de gestão, Mujica não tivesse alcançado bons indicadores de governo, como um crescimento médio entre 2008 e 2013 de 5,2%, taxas de desemprego abaixo de 6,5%, redução da pobreza em 72%, uma taxa de investimento de 25% do PIB e a manutenção de um bom clima de negócios e uma taxa de investimento estrangeiro direto (IED) superior a 5% do PIB. Uma série de conquistas às quais se deve adicionar os avanços sociais de sua administração, como a legalização do aborto, o casamento igualitário e as ações afirmativas voltadas para os afrodescendentes. E, em particular, a legalização da maconha, uma medida que, no mundo, foi saudada como um avanço sem igual na luta pelas liberdades civis, mas que Mujica atribuiu, sobretudo, a uma questão de segurança.

 

"Não defendo a maconha e gostaria que ela não existisse"[...] "mas o efeito do narcotráfico é pior do que o da própria droga." disse ele no final de dezembro ao canal brasileiro TV Folha.

 

Parafraseando Marx, o homem comum e corriqueiro que é José Mujica entendeu que não bastava compreender o mundo, mas que era necessário transformá-lo. Mas, ao contrário de muitos seguidores do autor de O Capital, Pepe soube que a persuasão e o exemplo são armas mais eficazes que a coerção e a violência.




 

Frases que caracterizam José Mujica e seu governo

Para a elaboração deste apartado foi consultado o texto:

Rabuffetti, Mauricio. José Mujica, a revolução tranquila.

Montevidéu: Editorial Aguilar. 2014.

 

 

“Não sou pobre, sou sóbrio, leve de bagagem, viver com o essencial para que as coisas não me roubem a liberdade.”

 

A maioria dos governantes do mundo vive sob o signo do poder que a opulência e a segurança lhe conferem; o ex-deputado, ex-senador e agora ex-presidente José Mujica Cordano decidiu continuar vivendo, em cada período de investidura em um governo, com austeridade; a mesma austeridade que se aplica em seu país às pessoas que dependem de um salário para seu sustento. Quanto aos esquemas de segurança presidencial, ele os rejeitou sempre que possível por uma razão primordial: em Uruguai persiste o ideal de igualdade no trato cotidiano entre os uruguaios e o acesso a uma figura pública é aberto, como nas democracias mais avançadas.

 

“Não é bonito legalizar a maconha, mas pior é entregar gente ao narcotráfico. A única adição saudável é a do amor.”

 

O aumento do consumo de drogas, a ponto de se tornar um problema de saúde pública, somado ao seu comércio ilegal, considerado um fator de aumento da violência, são alguns dos argumentos usados por José Mujica para transformar em debate público a legalização e regulamentação da venda e distribuição de maconha pelo Estado. O projeto de lei e sua aprovação foram considerados um “experimento” que, na América Latina, pode vir a constituir uma alternativa à guerra contra as drogas.

 

“Quem vai ser a favor do aborto? A questão é simples e de bom senso. Acho que ninguém pode ser a favor do aborto. É questão de princípios. Mas existe um grupo de mulheres na sociedade que se vê na amargura de ter que tomar essa decisão, contra tudo e todos. Porque a família não entende, por solidão, pelos reveses da vida. E esse mundo vive na clandestinidade. E [essa mulher] é explorada, coloca sua vida em risco. [...] Reconhecer a existência desse fato, colocá-lo na mesa legalizando-o, nos dá a oportunidade de agir persuasivamente sobre a decisão dessas mulheres. E se há uma questão econômica, de solidão, de angústia, os fatos mostram que muitas mulheres recuam e podem salvar mais vidas. O contrário é deixá-las isoladas no meio de seu drama. É hipócrita. Temos que assumir.”

 

“O casamento gay é mais velho que o mundo. Tivemos Júlio César, Alexandre o Grande. Dizem que é moderno, mas é mais antigo do que todos nós. É uma realidade objetiva. Existe. Não o legalizar seria torturar as pessoas inutilmente.”

 

A aprovação do casamento igualitário contou no Uruguai com amplo apoio do Parlamento; um projeto que foi elaborado em conjunto com coletivos e legisladores. Ao igualar em direitos o casamento civil entre heterossexuais e homossexuais, outras leis já existentes em Uruguai foram articuladas e atualizadas: a liberdade de culto e a separação entre religião e Estado, consagradas na Constituição de 1918.

 

“O desenvolvimento não pode ser contra a felicidade.”

 

Mujica ajudou a criar uma iniciativa de desenvolvimento de moradias, chamada Plano Juntos, na qual convergem o Ministério de Habitação, Ordenamento Territorial e Meio Ambiente e o Ministério de Desenvolvimento Social. O ex-presidente Mujica considera-a um exemplo importante de trabalho comunitário, que, além de oferecer uma solução de financiamento, gerou durante seu período de governo centenas de milhares de horas de trabalho voluntário. A iniciativa incorpora capacitação para a inserção no mercado de trabalho dos beneficiários, e acompanhamento social para que as crianças e crianças das famílias participantes tenham acesso à escola e a cuidados de saúde. Um projeto que ele confia profundamente e ao qual doou quase a totalidade de seu patrimônio pessoal e do salário que recebia como presidente.


 

"Tenho poucas coisas, é verdade, o mínimo, mas só para ficar rico. Quero ter tempo para me dedicar às coisas que me motivam. E se eu tivesse muitas coisas, teria que cuidar delas e não conseguiria fazer o que realmente gosto." Mujica



 


Notas

 

[1] A expressão uruguaia "não tem parangão" é uma forma coloquial de dizer que algo não tem grande importância, ou que algo é simples, sem grande relevância ou complexidade.

[2] Aparicio Saravia (1856-1904) foi um líder militar e político uruguaio, uma das figuras mais importantes da história do país, especialmente no contexto das guerras civis do final do século XIX. Saravia se destacou como um dos principais líderes dos blancos (partido tradicionalista e conservador do Uruguai) durante a Guerra Civil do Uruguai (conhecida como Guerra Grande, entre 1839 e 1851) e a guerra subsequente de 1897-1904. Ele foi um destacado general da resistência contra o governo central, tendo liderado as forças blancas em várias batalhas durante o período de instabilidade política e militar. Saravia teve um papel crucial na Revolução de 1904, também conhecida como a Revolução Blanca, onde as forças do Partido Nacional (blancos), lideradas por ele, se opuseram ao governo do Partido Colorado, que havia governado o Uruguai por muitos anos. Sua figura ficou associada à luta pela defesa dos interesses do interior do país, que se sentia marginalizado em relação à capital, Montevidéu. A morte de Aparicio Saravia, em 1904, no final da Revolução Blanca, foi um marco na história uruguaia. Embora ele tenha falecido pouco antes de ver sua causa triunfar, sua morte consolidou sua imagem como um mártir para os blancos, e o movimento que ele liderava teve um impacto duradouro na política do país. Saravia é lembrado como um herói nacional pelos membros do Partido Nacional e é considerado uma figura central na construção da identidade política uruguaia. Sua vida e liderança continuam sendo temas de estudo e reflexão sobre o desenvolvimento político e social do Uruguai.

[3] Enrique Erro (1914-2012) foi um economista, intelectual e político uruguaio, conhecido por suas críticas à estrutura econômica do país. Atuou como ministro da Economia nos anos 1950, defendendo uma política de desenvolvimento econômico autônomo, focada na industrialização e na justiça social. Foi um crítico das políticas neoliberais e das condições impostas por organismos como o FMI. Seu trabalho teve grande influência nas discussões sobre desigualdade social, dependência econômica e redistribuição de renda no Uruguai.

[4] No cárcere, Mujica encontrou uma maneira de manter a sanidade e a conexão com a natureza, cultivando flores em um pequeno jardim que montou dentro da prisão. Essa atividade foi importante para ele, não apenas como forma de resistência psicológica, mas também como um símbolo de sua visão de vida. Em várias entrevistas, Mujica afirmou que o cultivo das flores representava sua busca por beleza, liberdade e esperança em um ambiente de opressão.

[5] Este trecho, assim como todas as notas de rodapé presentes neste livro, foram adicionados por Clandestino e não integram o conteúdo original produzido pela Fundación CONFIAR.

[6] José "Pepe" Mujica, conhecido por sua simplicidade, vive em uma modesta casa de campo nos arredores de Montevidéu, no bairro de Rincón del Cerro. A residência é uma pequena construção cercada por um terreno onde cultiva hortaliças e flores, acompanhado de sua esposa, Lucía Topolansky, e seus cães, incluindo a famosa Manuela, que tinha uma pata amputada. Mujica mantém um estilo de vida austero, condizente com os valores que sempre defendeu, como a humildade e a conexão com a terra. Mesmo após deixar a presidência, ele continua dedicando seu tempo à agricultura, leitura e palestras, sendo admirado como um símbolo de coerência e autenticidade em sua vida pública e privada.

[7] Antes de 2005, cerca de 39% da população vivia abaixo da linha da pobreza; esse percentual foi reduzido para aproximadamente 11% até 2014. A indigência também apresentou queda, passando de 5% para 0,5% no mesmo período. (OLMEDO, 14 de dezembro de 2014)

[8] Os aimarás são um grupo indígena da região andina, com presença significativa no sul do Peru, norte da Bolívia e noroeste da Argentina. Sua língua, o aimará, é falada por milhões e carrega um legado cultural profundo, ligado ao cultivo de alimentos como batatas e quinoa, além de rituais e festivais tradicionais. Embora a colonização tenha impactado suas comunidades, os aimarás preservaram suas práticas culturais. José Mujica é um defensor das culturas indígenas e suas lutas, destacando, em várias ocasiões, a importância de respeitar as tradições dos povos originários e a necessidade de criar um modelo econômico que favoreça a justiça social e o respeito à diversidade cultural, algo que ressoa com a forma de vida e os valores das comunidades aimarás.

[9] A penillanura é um tipo de relevo caracterizado por terrenos planos ou suavemente ondulados, resultantes de processos erosivos que desgastaram áreas de relevo mais acidentado, tornando-as mais planas. É comum em regiões de altitudes médias e em bacias sedimentares.

[10] O Pacto de Quioto (ou Protocolo de Quioto) é um tratado internacional aprovado em 1997, durante a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC), na cidade japonesa de Quioto. O acordo visava a redução das emissões de gases de efeito estufa por países industrializados, com o objetivo de combater as mudanças climáticas globais. O protocolo estabelecia metas vinculativas de redução de emissões para países desenvolvidos, com base na ideia de que esses países eram historicamente responsáveis pela maior parte das emissões. O Pacto entrou em vigor em 2005 e, embora tenha contribuído para a conscientização e ações sobre mudanças climáticas, não conseguiu alcançar todas as metas estabelecidas, especialmente devido à falta de adesão de grandes emissores como os Estados Unidos e o Brasil. Em 2012, o Protocolo de Quioto foi sucedido pelo Acordo de Paris, que busca uma abordagem mais global e inclusiva para enfrentar a crise climática.

[11] O nacionalismo chauvinista é uma forma extrema de nacionalismo caracterizada pela exaltação exacerbada dos interesses e da identidade de uma nação, muitas vezes acompanhada de hostilidade ou desprezo por outras nações ou grupos étnicos. O termo "chauvinismo" origina-se do nome de Nicolas Chauvin, um soldado francês conhecido por seu patriotismo excessivo durante as Guerras Napoleônicas. No contexto do nacionalismo chauvinista, há uma crença na superioridade da própria nação, o que pode levar à xenofobia, intolerância e políticas exclusivistas. Essa ideologia muitas vezes se manifesta em movimentos políticos que buscam a supremacia nacional, em detrimento dos direitos e da dignidade de outros povos ou culturas.

[12] Fidel Castro propôs uma reforma na Organização das Nações Unidas (ONU) durante seu discurso na 59ª Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2004. Ele argumentava que a ONU precisava ser transformada em uma organização mais democrática e representativa, para que pudesse realmente refletir os interesses dos países em desenvolvimento e não apenas dos países mais poderosos. Castro criticava a estrutura do Conselho de Segurança da ONU, especialmente o poder de veto concedido às cinco potências nucleares (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), que, segundo ele, impedia decisões justas e equitativas. Ele também alertava para o domínio das potências ocidentais sobre as questões globais e defendia um novo modelo de governança mundial baseado na justiça e na igualdade entre as nações.

[13] A taxa Tobin é uma proposta de imposto sobre as transações cambiais internacionais, sugerida pelo economista James Tobin em 1972. O objetivo da taxa seria desestimular a especulação financeira de curto prazo, que, segundo Tobin, poderia ser prejudicial para as economias, enquanto proporcionaria uma fonte de recursos para financiar o desenvolvimento global. A ideia era cobrar um pequeno percentual sobre todas as transações de câmbio, visando reduzir a volatilidade dos mercados financeiros e gerar fundos para iniciativas como a ajuda internacional e o combate à pobreza. Embora a proposta nunca tenha sido totalmente implementada, ela continua a ser discutida como uma possível ferramenta para estabilizar os mercados financeiros e promover maior justiça econômica global.

 

LEIA ON-LINE GRATUITAMENTE OU ADQUIRA UMA DAS VERSÕES DA EDITORA CLANDESTINO.

Todos os arquivos estão disponíveis gratuitamente, porém, ao adquirir um de nossos arquivos, você contribui para a expansão de nosso trabalho clandestino.

ÚLTIMAS POSTAGENS

bottom of page