Galinhas mortas e a crise dos ovos: a alta dos preços dos alimentos no Brasil é culpa do governo?
A alta dos preços dos alimentos no Brasil tem sido um tema recorrente nos debates econômicos e sociais, especialmente em um contexto de inflação e crise econômica. No entanto, para compreender essa dinâmica, é necessário ir além das análises superficiais, principalmente quando há uma polarização política, e explorar as interconexões entre as mudanças climáticas, o modelo capitalista de produção e o papel do agronegócio.
O agronegócio brasileiro é um dos pilares da economia nacional, responsável por uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) e das exportações, sem que isso reflita diretamente na produção de alimento de verdade, cuja responsabilidade se dá em grande maioria, pela agricultura familiar e agroecologia. No entanto, seu modelo de produção, baseado em monoculturas extensivas, uso intensivo de agrotóxicos e desmatamento, tem contribuído diretamente para as mudanças climáticas que, direta e indiretamente, afetam a produção tanto das commodities como dos alimentos.
A Amazônia e o Cerrado, por exemplo, que desempenham um papel crucial na regulação do clima global, têm sofrido com o aumento do desmatamento, impulsionado pela expansão da fronteira agrícola. A destruição de biomas como o Cerrado e o Pantanal também agrava o problema, reduzindo a biodiversidade e a capacidade de resiliência dos ecossistemas.
As mudanças climáticas, por sua vez, impactam diretamente a produção agrícola. Eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor, tornam-se mais frequentes e intensos, afetando a produtividade das lavouras e a criação de animais – sem falar também nos impactos nos próprios centros urbanos e toda calamidade pública com enchentes e ondas de calor. Esse cenário cria um círculo vicioso: o agronegócio contribui para as mudanças climáticas, que, por sua vez, prejudicam a produção agrícola, levando à escassez de alimentos e ao aumento dos preços.
No contexto do capitalismo global, o Brasil ocupa uma posição periférica, caracterizada pela exportação de commodities agrícolas e minerais. A desvalorização do real, embora beneficie as exportações ao tornar os produtos brasileiros mais baratos no mercado internacional, tem um impacto negativo sobre a população local. A alta dos preços dos alimentos é agravada pela desvalorização da moeda, que encarece insumos importados, como fertilizantes e máquinas agrícolas, e aumenta a pressão inflacionária.
O agronegócio, por sua vez, se beneficia da desvalorização do real, pois seus produtos se tornam mais competitivos no mercado externo. Isso cria um incentivo para que grandes produtores priorizem a exportação em detrimento do abastecimento interno, reduzindo a oferta de alimentos no mercado doméstico e contribuindo para o aumento dos preços. Nesse sentido, o capitalismo global e o modelo de produção do agronegócio atuam em conjunto para aprofundar as desigualdades sociais e econômicas no país.
O Caso dos Ovos: Um Exemplo Concreto
O aumento no preço dos ovos ilustra de forma clara como as mudanças climáticas e o modelo de produção capitalista impactam a cadeia de alimentos. Os ovos são um alimento básico na dieta da população brasileira, especialmente para as classes mais baixas, que dependem de fontes proteicas acessíveis. Nos últimos anos, o preço dos ovos tem subido significativamente, e as mudanças climáticas têm um papel central nesse fenômeno.
As altas temperaturas afetam diretamente a produção de ovos. Galinhas poedeiras são extremamente sensíveis ao calor, e o estresse térmico reduz sua capacidade de produção. Além disso, o aumento da temperatura afeta a qualidade dos ovos, resultando em cascas mais finas e frágeis, o que aumenta as perdas durante o transporte e o armazenamento. A dificuldade em manter condições ideais de temperatura nas granjas também eleva os custos de produção, já que é necessário investir em sistemas de refrigeração e ventilação.
As mudanças climáticas também impactam a disponibilidade e o preço dos insumos utilizados na alimentação das galinhas, que tem como base os grãos de milho e farelo de soja. Secas prolongadas e eventos climáticos extremos reduzem a produtividade dessas culturas, encarecendo a ração animal e, consequentemente, o custo final dos ovos.
Sendo assim, a alta dos preços dos alimentos no Brasil, exemplificada pelo caso dos ovos, é um problema estrutural que reflete as interconexões entre as mudanças climáticas, o modelo capitalista de produção e o papel do agronegócio. Enquanto o agronegócio continuar a priorizar a exportação e a lucratividade em detrimento da sustentabilidade ambiental e do abastecimento interno, a população brasileira seguirá sofrendo com a escassez e o aumento dos preços dos alimentos. E o Brasil, enquanto não romper com esse tipo de exploração ambiental, e não priorizar a transição agroecológica, seguirá refém dessas atitudes danosas que tendem a piorar ainda mais essas questões não apenas ecológicas, mas sociais e econômicas.
Para enfrentar esse desafio, é necessário repensar o modelo de produção agrícola, priorizando práticas sustentáveis que respeitem os limites dos ecossistemas e garantam a segurança alimentar da população. Além disso, é essencial questionar o papel do capitalismo global na perpetuação das desigualdades e na exploração dos recursos naturais, o que inclui a nefasta ideia de explorar mais petróleo na margem equatorial. Somente com uma abordagem holística e crítica será possível construir um sistema alimentar justo e resiliente, capaz de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Luiz Fernando Padulla: Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação. Autor do blog e do canal no YouTube “Biólogo Socialista, e do PodCast “ProfPadulla”. Instagram: @BiologoSocialista